Em pelo menos 11 municípios paraibanos, a aliança de chapa que venceu as eleições de 2024 já não existe mais. Os rompimentos entre prefeitos e vices, que em alguns casos aconteceram poucos meses após a posse, expõem um padrão de disputa por espaço político, falta de participação nas decisões e divergências sobre alianças futuras. A tensão real não é apenas pessoal: ela mexe na governabilidade, na execução de políticas públicas e já projeta os cenários para 2028.
Levantamento publicado nesta segunda-feira (3) mostra que cidades como Pedras de Fogo, Esperança, Serra Branca, Itaporanga e Matinhas estão entre os casos em que a parceria eleitoral se desfez ainda no primeiro ano de mandato.
Para o leitor paraibano, esses rachames não são fofoca política. Eles afetam diretamente a administração da cidade, a capacidade de aprovar projetos na Câmara e até o acesso a recursos federais, como aponta estudo da Confederação Nacional de Municípios (CNM).
O que leva ao rompimento: falta de espaço e divergências eleitorais
As causas mais frequentes nos casos listados são duas: o vice se sente excluído das decisões administrativas e há conflito sobre os rumos políticos para o próximo pleito.
Em Serra Branca, o vice-prefeito Flávio Torreão afirmou publicamente que não teve participação efetiva nas decisões do governo. Já em Itaporanga, a vice-prefeita Calina Dantas passou a apoiar um candidato diferente do escolhido pelo prefeito Azif Lemos para a Assembleia Legislativa, o ponto de ruptura foi uma divergência eleitoral, não administrativa.
Em Pedras de Fogo, a vice-prefeita Manuella Maroja, filha do ex-prefeito Manoel Júnior, reclamou de falta de espaço político e foi excluída de uma atividade oficial da prefeitura. Em Esperança, o rompimento veio depois que o prefeito Thiago Moraes exonerou nomes ligados ao grupo do ex-prefeito Nobinho Almeida, incluindo o filho dele do cargo de Chefe de Gabinete.
Em Matinhas, a vice-prefeita Marizete Vieira rompeu em fevereiro de 2026 e já anunciou apoio a outro grupo para as próximas eleições.
O impacto na gestão e na lei
Quando prefeito e vice não se falam, a administração municipal sofre. Um estudo da Confederação Nacional de Municípios (CNM) aponta que a instabilidade política na gestão pode atrapalhar a execução de políticas públicas e o acesso a recursos federais, ou seja, obras, convênios e programas podem travar.
Do ponto de vista legal, a Constituição Federal prevê, no artigo 29, que o vice substitui o prefeito em caso de impedimento e o sucede em caso de vacância. Isso significa que, se o prefeito se afastar ou for cassado, o vice assume, o que torna o rompimento um risco político real para o chefe do executivo.
A Lei Orgânica dos Municípios estabelece as atribuições do vice, mas não obriga o prefeito a dar espaço administrativo. Já o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já decidiu que o vice pode se desfiliar do partido sem justa causa em casos de rompimento, especialmente se quiser concorrer a outro cargo, o que abre caminho para candidaturas paralelas em 2028.
O que esses rachames significam para as eleições de 2028
Em quase todos os casos, o rompimento já vem acompanhado de movimentação eleitoral antecipada. Em Pedras de Fogo, a vice Manuella Maroja já se coloca como candidata para 2028. Em Matinhas, a vice-prefeita já anunciou apoio a outro grupo. Em Itaporanga, o ex-prefeito Divaldo Dantas, tio da vice, declarou que ela agora é adversária política.
Isso significa que, em vez de uma única chapa consolidada, esses municípios podem ter dois candidatos competitivos saindo da mesma gestão, um cenário que fragmenta votos e pode beneficiar um terceiro nome.
Não há, porém, garantia de que todos esses rompimentos resultarão em candidaturas viáveis. O desgaste interno e a exposição pública do racha podem desgastar tanto o prefeito quanto o vice, abrindo espaço para outsiders ou grupos de oposição que estavam fora da disputa em 2024.
O teste que espera esses 11 municípios
O que está em jogo não é apenas a relação pessoal entre prefeito e vice. É a capacidade de governar com estabilidade até 2028. Cada um desses rompimentos coloca uma dúvida sobre o andamento de projetos, a aprovação de leis na Câmara e a confiança do eleitorado.
A redação do Alerta Paraíba tentou conseguir resposta de prefeitos e vices citados, mas não conseguiu entrar em contato até a publicação desta matéria.



