O presidente Lula (PT) telefonou para o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), na noite de terça-feira (11) para agradecer o apoio declarado à sua reeleição e sugerir um encontro presencial em Brasília. A ligação torna pública a adesão de Motta, anunciada na segunda-feira (10) durante a posse de uma advogada no TRE-PB, e expõe uma tensão: o deputado paraibano tomou posição antes da definição nacional do Republicanos, que optou pela neutralidade na disputa presidencial.

O gesto de Motta carrega peso político imediato. Ele ocupa a Presidência da Câmara, cargo que permite pautar votações e negociar com o Executivo. Ao mesmo tempo, o apoio mexe com a costura eleitoral na Paraíba, onde o pai de Hugo, o ex-prefeito de Patos e candidato a senador Nabor Wanderley (Republicanos), já havia declarado voto em Lula e integra a chapa majoritária que também tem o governador Lucas Ribeiro (PP) e o ex-governador João Azevêdo (PSB) como candidatos ao Senado.

Os ganhos políticos para cada lado

Para Lula, o apoio de Hugo Motta representa um reforço estratégico no Nordeste, região importante para a reeleição. A Paraíba tem histórico de alianças complexas e mutáveis, e ter o presidente da Câmara ao lado pode ajudar a consolidar votos no estado. Além disso, a bancada do Republicanos na Câmara é significativa, e a adesão de seu principal nome dá ao governo um canal direto de negociação no Legislativo, segundo dados da Câmara dos Deputados.

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Para Hugo Motta, o ganho é duplo. Apoiar o presidente fortalece sua posição como interlocutor do Palácio do Planalto, o que pode facilitar a tramitação de projetos de interesse do Republicanos. Motta também sinaliza autonomia em relação à direção nacional do partido, que optou pela neutralidade. Essa decisão nacional, segundo a Câmara dos Deputados, é uma forma de dar liberdade aos diretórios estaduais para negociar localmente, e Motta usou essa margem para se alinhar ao petista.

O desalinho com a estratégia nacional do Republicanos

A neutralidade do Republicanos na eleição presidencial foi anunciada como uma posição institucional que evita rachas internos. Ao declarar apoio a Lula, Motta quebra publicamente essa linha, ainda que a decisão nacional permita flexibilidade local. O movimento sinaliza que o presidente da Câmara aposta em uma aliança com o governo federal, mesmo que seu partido, em nível nacional, não tenha tomado partido.

Na prática, o gesto de Motta não é uma ruptura, mas um teste. Se Lula vencer, Motta terá um crédito político. Se perder, o deputado pode ter de explicar ao partido por que se adiantou. A neutralidade foi pensada para evitar esse tipo de exposição, mas o cenário paraibano, com Nabor Wanderley já alinhado a Lula, parece ter empurrado Motta a seguir o mesmo caminho.

Pauta dos combustíveis: o que está em jogo

Durante o telefonema, Motta informou a Lula que mantém conversas com ministros sobre um projeto de redução ou zeragem temporária de impostos federais sobre gasolina, diesel e etanol em períodos de forte alta no preço do petróleo. A desoneração de combustíveis, como medida, pode aliviar o bolso do consumidor, mas tem efeito colateral: reduz a arrecadação de estados e municípios. Em 2022, o Congresso aprovou a zeração de PIS/Cofins sobre combustíveis. A medida gerou debates sobre compensações aos estados.

Para a Paraíba, a pauta é sensível. Uma eventual desoneração sem compensação apertaria as contas do governo estadual, que já enfrenta desafios de receita. Ao mesmo tempo, a população sente o peso dos preços altos na bomba. Motta, ao se colocar como ponte entre o governo federal e os estados, pode tentar negociar mecanismos de compensação. A ligação com Lula pode acelerar essa discussão, mas o resultado ainda é incerto.

Reflexos na Paraíba: alianças e rusgas

O apoio de Motta a Lula tem efeito direto na chapa majoritária paraibana. Nabor Wanderley, candidato a senador pelo Republicanos, já havia declarado voto em Lula, e a aproximação do filho reforça a unidade familiar. Mas a jogada desagrada o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB), que também disputa uma vaga ao Senado na chapa encabeçada por Lucas Ribeiro. A insatisfação de Veneziano pode criar atritos na aliança que sustenta a candidatura do governador.

A chapa atual, Lucas Ribeiro (governador), João Azevêdo (senador) e Nabor Wanderley (senador), já é um arranjo complexo. Com Hugo Motta agora explicitamente alinhado a Lula, a posição do governador Lucas, que é do PP, fica em xeque: ele precisa equilibrar o apoio a Lula com eventuais pressões de seu partido. O cenário lembra a tradição paraibana de alianças fluidas, onde o apoio de uma figura como Motta pode pesar mais do que siglas partidárias, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral sobre o histórico de coligações no estado.

O que a insatisfação de Veneziano pode significar

A reação de Veneziano Vital do Rêgo ainda não foi pública, mas a matéria original registra que a aproximação entre Motta e Lula o desagrada. Isso pode indicar que o senador do MDB se sente isolado ou preterido dentro da própria aliança. Se a insatisfação se aprofundar, Veneziano pode tentar costurar um movimento próprio, ou até mesmo buscar aproximação com outros palanques. A chapa majoritária, que já enfrenta costuras internas, pode ganhar mais um ponto de tensão.

A redação do Alerta Paraíba tentou conseguir resposta de Veneziano Vital do Rêgo, mas não conseguiu entrar em contato. O que se sabe é que o cenário segue aberto: a decisão de Hugo Motta foi um movimento calculado, mas as consequências na Paraíba ainda dependem de como os demais atores, especialmente o governador e o senador do MDB, vão reagir nas próximas semanas.

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