O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fechou um acordo com o presidente do PP, senador Ciro Nogueira, para apoiar a reeleição de Hugo Motta (Republicanos-PB) à presidência da Câmara dos Deputados em 2027, desde que ambos sejam reeleitos neste ano. Lula também prometeu respaldo a Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) no Senado, na mesma condição.

O acerto foi um dos fatores que levaram a Federação União Progressistas (União Brasil e PP) a declarar neutralidade na disputa presidencial. Nos bastidores, o PT fez um “acordo de cavalheiros” com Ciro Nogueira: não atrapalhará sua reeleição ao Senado pelo Piauí, e ele deixará de fazer oposição a Lula. A informação é da jornalista Vera Rosa, do Estadão, publicada nesta segunda-feira (10). A Paraíba não tem um deputado no comando da Câmara desde 1967. Com Motta, o estado pode ganhar influência direta sobre a pauta legislativa e o ritmo de votações.

Precedentes de acordos para a presidência da Câmara

A eleição para a Mesa Diretora da Câmara ocorre a cada dois anos, no início da primeira e da terceira sessões legislativas, com reeleição permitida para o mesmo cargo na eleição imediatamente subsequente, segundo o Regimento Interno da Casa. Historicamente, a escolha do presidente da Câmara é resultado de negociações entre o governo e o Centrão, bloco informal que reúne partidos como PP, Republicanos, União Brasil e PL.

Publicidade

O presidente da Câmara é o segundo na linha sucessória da Presidência da República, atrás apenas do vice-presidente, e define a pauta de votações. Acordos como o de Lula com Ciro Nogueira seguem a lógica de garantir governabilidade: o Planalto cede espaço na Mesa Diretora em troca de apoio em votações estratégicas. Exemplos recentes incluem a reeleição de Arthur Lira (PP-AL) em 2023, respaldada pelo governo Lula após negociações com o Centrão.

O que a Paraíba ganha (e o que pode perder) com Hugo Motta na presidência

Hugo Motta é deputado federal pela Paraíba desde 2010, reeleito consecutivamente, e já foi líder do Bloco do MDB e do Republicanos na Câmara. O Republicanos integra a base de apoio do governo Lula, mas tem quadros que oscilam entre governo e oposição, segundo o Senado Federal. Isso torna a presidência de Motta um termômetro da relação entre o Planalto e o Centrão.

Para a Paraíba, ter um paraibano na presidência da Câmara dá mais peso na definição da pauta e na distribuição de emendas e cargos. O último paraibano a ocupar o cargo foi João Agripino, em 1967. No entanto, o benefício não é automático: depende da capacidade de Motta de articular emendas e projetos de interesse do estado, como recursos para infraestrutura e segurança pública. Ao assumir o posto, ele precisará equilibrar as demandas do governo federal com as pressões do Centrão e da oposição.

O papel do Centrão e o histórico de Ciro Nogueira

Ciro Nogueira, presidente do PP, é um dos principais articuladores do Centrão. O grupo tem histórico de alianças pragmáticas com o governo de turno, mas também de rupturas quando as demandas por cargos e emendas não são atendidas. O acordo costurado com Lula incluiu a mediação dos ministros do STF Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin, este último ex-advogado de Lula. Como parte do trato, votações de PECs polêmicas, como o fim da escala 6×1 e o uso de recursos de bets e do fundo do pré-sal para segurança pública, foram adiadas para depois das eleições, conforme relatou Alcolumbre no encontro.

Os desafios de Hugo Motta em uma eventual presidência

Caso seja eleito, Hugo Motta enfrentará o desafio de gerir uma Câmara fragmentada, com pautas do governo como a reforma tributária e o ajuste fiscal, e pressões do Centrão por mais espaço. O Republicanos, seu partido, tem histórico de alinhamento com o governo, mas também de independência em temas sensíveis. A reeleição de Motta dependerá da manutenção do apoio do PP e do União Brasil, que podem reavaliar a aliança conforme o resultado das urnas.

O que está em jogo para a Paraíba e para o governo Lula

O acordo entre Lula e Ciro Nogueira sela uma trégua eleitoral que pode se desfazer depois de outubro. Para a Paraíba, a chance de ter um presidente da Câmara pela primeira vez em quase 60 anos é real, mas o preço pode ser a subordinação da agenda do estado às negociações nacionais. Se Hugo Motta se mantiver fiel ao Planalto, a Paraíba ganha um canal direto com o governo federal. Se optar por uma linha mais independente, pode se tornar um contraponto ao governo Lula. A situação ainda depende das urnas: a reeleição de Lula e de Motta não está garantida.

A redação do Alerta Paraíba tentou conseguir resposta de Hugo Motta, mas não conseguiu entrar em contato.

Publicidade