A Paraíba registrou a menor taxa de crimes de estelionato do Brasil entre 2024 e 2025, com cerca de 250 casos por 100 mil habitantes, contra uma média nacional de 1.059,43. No mesmo período, porém, os furtos de celulares no estado dispararam 51%, saltando de 3.174 para 4.799 ocorrências. A aparente contradição entre um índice baixo de golpes e o avanço do crime que serve de porta de entrada para eles é o que o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 revelou, segundo reportagem do g1 PB publicada neste domingo (26).
Para o paraibano, o dado importa porque o celular furtado não é apenas um objeto caro perdido: é a chave para aplicativos bancários, redes sociais e dados pessoais que podem ser usados em fraudes digitais. Se os furtos crescem, o risco de ser vítima de um estelionato digital pode estar mudando de forma, não diminuindo.
A conexão entre celular furtado e golpe digital
O Anuário aponta relação direta entre estelionato e crimes com celulares, já que os aparelhos dão acesso a contas bancárias e dados pessoais. O Código Penal Brasileiro (artigo 171) define o estelionato como a ação de enganar alguém para obter vantagem ilícita, incluindo as modalidades praticadas por meios eletrônicos, com pena de um a cinco anos de reclusão. Na prática, um celular furtado dá ao criminoso acesso ao Pix, a aplicativos de crédito e a redes sociais usadas para aplicar golpes em contatos da vítima.
O aumento de 51% nos furtos de celulares na Paraíba contrasta com a queda de 23,3% nos roubos (de 2.082 para 1.598 casos). Ou seja, o crime está migrando para a modalidade sem violência explícita, mas com o mesmo potencial de dano financeiro. A Paraíba perdeu apenas para o Rio de Janeiro no ranking de crescimento do indicador que reúne roubos e furtos de celulares em 2025.
Medidas em curso e o que ainda falta
A Polícia Civil da Paraíba conta com a Delegacia de Repressão a Crimes Cibernéticos (DRCC), responsável por investigar estelionatos digitais e outros delitos no ambiente online. Em nível federal, o Banco Central estabeleceu, pela Resolução BCB nº 103/2021, limites para transações via Pix no período noturno como barreira contra fraudes após furtos de celular. O Ministério da Justiça e Segurança Pública também desenvolve campanhas de conscientização sobre segurança digital em parceria com as secretarias estaduais.
Não há, no entanto, dados oficiais que mostrem quantos dos furtos de celular na Paraíba resultaram efetivamente em estelionatos digitais, nem qual o percentual de recuperação dos aparelhos ou de prisões de golpistas. A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) estabelece regras sobre o tratamento de informações pessoais e responsabiliza empresas em caso de vazamento, mas a aplicação prática em crimes cometidos a partir de celulares furtados ainda é um desafio de investigação.
O teste que a segurança digital da Paraíba ainda vai enfrentar
O que está em jogo é se a baixa taxa de estelionatos se sustenta ou é um retrato incompleto. Se os furtos de celular continuam subindo, o número de vítimas em potencial para golpes digitais também cresce. A eficácia da DRCC, a adesão da população a medidas de segurança como bloqueio remoto de aplicativos e a capacidade de rastrear o uso criminoso de aparelhos furtados serão os fatores que vão definir se a Paraíba mantém a liderança positiva ou se o indicador de estelionato vai começar a subir nos próximos anos. A redação do Alerta Paraíba tentou conseguir resposta da Secretaria de Segurança Pública da Paraíba sobre as estratégias para integrar o combate aos furtos e aos estelionatos digitais, mas não conseguiu entrar em contato.




