A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram na quarta-feira (26) a Operação Mamon, que mira um esquema de fraude em contratos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro. Foram cumpridos 35 mandados de busca e apreensão e dois de prisão preventiva em cidades da Paraíba, Pernambuco e Paraná. Durante a ação, a PF apreendeu R$ 700 mil em dinheiro, além de joias e relógios.

A investigação aponta que uma organização da sociedade civil (OSC) firmou contratos com prefeituras, inclusive na área da saúde, com indícios de direcionamento e movimentações atípicas de recursos. A operação é mais uma ação da PF no Nordeste em 2026 focada em fraudes em contratos de saúde com organizações sociais, segundo balanço parcial da corporação.

A notícia interessa a todo paraibano porque expõe um mecanismo usado para desviar dinheiro que deveria ir para hospitais, postos de saúde e medicamentos, e que depende de falhas na fiscalização municipal para funcionar.

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O mecanismo: como a OSC vira ponte para o desvio

O modelo de fraude com Organizações da Sociedade Civil na saúde pública segue um roteiro. A OSC, em tese uma entidade sem fins lucrativos, firma um contrato com a prefeitura para gerir serviços ou fornecer insumos. O dinheiro público sai do caixa municipal para a conta da OSC. A partir daí, a entidade pode superfaturar compras, contratar empresas de fachada ou simplesmente não prestar contas.

No caso da Operação Mamon, a PF encontrou indícios de que esse caminho foi usado com direcionamento de contratos e movimentações suspeitas de valores. A Controladoria-Geral da União (CGU) já havia identificado, em auditoria de 2023, fragilidades nos controles internos de prefeituras paraibanas na celebração de convênios com OSC. As recomendações da CGU, segundo o relatório, não foram implementadas integralmente até 2025.

O Tribunal de Contas do Estado da Paraíba (TCE-PB) tem pelo menos 12 processos em tramitação sobre irregularidades em contratos de saúde com OSC entre 2022 e 2026, com indicativos de superfaturamento e falta de prestação de contas. A OSC recebe o recurso, executa parcialmente ou com sobrepreço, e a prefeitura não tem estrutura ou vontade para fiscalizar.

Os indícios da Operação Mamon e o padrão histórico

A operação encontrou R$ 700 mil em espécie, joias e relógios, o que sugere lavagem de dinheiro. A PF não detalhou quais prefeituras paraibanas são alvo nem o valor total dos contratos sob suspeita. O que se sabe é que a investigação aponta para uma OSC que teria firmado contratos com entes municipais, com indícios de direcionamento e movimentações atípicas.

O modelo não é novo. Em 2025, o Ministério Público da Paraíba (MPPB) firmou Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com três prefeituras paraibanas para adoção de um checklist de transparência em contratos com OSC, como reação a denúncias anteriores. O TAC foi uma tentativa de criar um filtro antes que o dinheiro público caia na conta de entidades suspeitas.

A Operação Mamon não é um caso isolado. Ela se encaixa em um histórico de pelo menos 12 processos no TCE-PB e em uma auditoria da CGU que já apontava o risco. A diferença é o volume de mandados e a apreensão de valores, o que pode indicar que a investigação encontrou uma rede mais organizada.

A conta que as prefeituras ainda vão pagar

O que está em jogo na Operação Mamon é a capacidade das prefeituras paraibanas de controlar para onde vai o dinheiro da saúde. Os contratos com OSC são uma ferramenta legítima de gestão, mas, sem fiscalização efetiva, viram uma porteira aberta para desvios.

A PF e a CGU continuam analisando o material apreendido. A investigação pode revelar novas prefeituras envolvidas e o montante total desviado. O TCE-PB e o MPPB, que já têm casos em andamento, podem ser acionados para aprofundar as apurações.

A redação do Alerta Paraíba tentou conseguir resposta das prefeituras citadas na investigação, mas não conseguiu entrar em contato até o fechamento desta edição. O que se sabe até agora é que o modelo de fraude persiste porque os mecanismos de controle falham na ponta, e a Operação Mamon é um sinal de que a fiscalização começa a apertar.

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